Difícil. Sei que compreender é o melhor caminho, até porque qualquer rumo que escape desta sugestão me fará perder os cabelos, arrancá-los um a um, então eu posso respirar, bem profundamente, e me lembrar de todo o seu contexto pessoal, suas vivências, suas experiências, suas cicatrizes, e tantas coisas que nunca haverá de ter consciência, improvável que se percebesse assim, céus, que difícil. Vejo os atos que reproduzo e peço a Deus que me dê sabedoria para não repetir seus vícios. Difícil mensurar quem é refém de quem, quem é marionete de quem. Se silencio, estou equivocada, se falo, estou equivocada, se defendo, estou equivocada, se observo, talvez esteja começando a acertar alguma coisa. Mas reconheço que ainda não tenho a paciência necessária, não tenho a resignação necessária, não tenho a compreensão necessária. Não, ainda.
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Mostrando postagens de agosto, 2017
Para as minhas crianças
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Fátima Babini
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Era Bibi uma raposinha ruiva muito alegre e serelepe. Ela gostava de acordar bem cedo, abrir a janela do quarto e ver o Sol abrir um bocejo enorme, mostrando todos os dentes num sorriso de bom dia. Da janela, podia avistar sua plantinha no jardim crescendo. A plantinha tinha umas flores laranjas que sempre se abriam quando o Sol já estava acordado lá no alto do céu azul. - Bom dia, plantinha! - disse Bibi. - Bom dia, Bibi - respondeu a plantinha. - Adivinha o que eu vou levar hoje para você! A plantinha riu. - Ora essa! O que você traz todo dia: água bem fresquinha para me deixar forte e me fazer crescer mais ainda. E Bibi ria também, enchendo o balde de água para refrescar a plantinha, enquanto esperava o café que Momi, o ratinho, seu vizinho, sempre trazia toda manhã para aquecer o paladar da raposinha.
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Fátima Babini
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As ruas respiravam o ar frio daquele período invernoso. As cadeias de montanhas que assentavam o rio, outrora de águas caudalosas, agora limitavam um leito quase inexistente, de tímida fluidez, quase implorando o existir. A coleção de cogumelos ao longo da estrada, imóvel, parecia observar as botas carrancudas que arrastavam os pés mal aquecidos ilha afora. O cabelo liso escorregava os dedos encaixados na luva envelhecida da mão direita, fazia curva ao alcance do pescoço, deixando as articulações soltarem-se desapontadamente ao encarar o destino inóspito daquele indivíduo cambaleante. Beijaram-se com a certeza do adeus definitivo. Três meses de vida a ansiar o rosto que os braços nunca iriam embalar, sentia o peito apertar, sabia que não voltaria àqueles olhos neblinantes, àquele sonho de ninar a criança ainda protegida no ventre da mulher amada. "A guerra não é lugar de onde se volta com vida", dissera-lhe o velho Pietro. "Morre algo, sempre morre algo de nós ...
Não-lugar
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Fátima Babini
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Sem identidade, inorgânico, solidão entre multidões de desamados irmãos. Lili dos cabelos compridos e amarelos me lembra das princesas que lia na infância. Os olhos amendoados acostumados ao descaso, era bem a terceira vez este ano que cumpria aquele ritual de passagem. Gostou de mim, bem o sei. Foi recíproco. Davi dos dedos queimados pelo fogo, a urgência de possuir a si através da fumaça expelida junto com a alma. Mas por que alguém amável se destrói por tão pouco? O que nos leva ali? O quanto de humanidade desolada há de comum entre nós, entrenós tão distantes, tão parentes de espírito? As vozes na cabeça reproduzidas por todo o espaço. Não vou deixar ninguém dormir, não vou deixar ninguém dormir, não havia mais sombras, nada de medos, pois já somos nós as próprias sobras. [Segundo Cláudia M. Pereira, de acordo com Marc Augé, todo e qualquer espaço que sirva apenas como espaço de transição e com o qual não criemos qualquer tipo de relação é um não-lugar. "O não-lug...
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Fátima Babini
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- Ora, ora, vejam só - espantou-se. - Vejam só quem está aqui! Aldo não esboçou sorrisos, tampouco conformou-se com a neutralidade da face. Franziu as sobrancelhas violentamente. O impacto da careta fez Alessandro recuar, entretanto, o rapaz não demorou a realizar nova investida de aproximação. - Nem mais um passo - pediu Aldo. - Diga-me onde eles estão. - Hmmm, parece que está procurando alguém... - riu Alessandro. - Deixe-me ver, partindo de você, só pode estar a questionar-se sobre Giulli ou Thomazzo. Francamente? - Francamente! - irritou-se o pequeno. - Francamente, francamente, francamente! Pelos céus, Sandro, não brinque com isso! Se o céu fosse profundo o bastante para espelhar aqueles corpos, cabendo mais de mil seres em toda sua amplidão, toda a eternidade anil adentro não caberia o silêncio inquietante daquele cubículo onde estavam. Nem uma palavra. Alessandro direcionou o olhar para os pés de Aldo, registrando lentamente os farrapos que escondiam a pele do garotinh...
Heart, by Langston Hughes
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Fátima Babini
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- Tempos sombrios, bem os sei, meu caro - balbuciou o velho entre pigarros. - Ah, malditos charutos que me roubam o fôlego! Logo me roubarão a vida, se quer saber - continuou, os pigarros insistentes. Entreabertos e desconfiados, os claros olhos pueris não haviam de compreender a análise da graveza daqueles dias feita pelo avô. Até aquele momento, o garoto não tinha tido acesso a situações de violência, apenas conhecia a tal infância bem protegida, entre cômodos espaçosos e cuidados em excesso, por vezes desnecessários. - Quando eu tinha a sua idade... - suspirou o velho. - Quando eu tinha a sua idade, os tempos eram de paz e contentamento. Não existiam preocupações de qualquer natureza. Tudo era bem resolvido e estável - a boca cuspiu o pigarro fora. - Agora você conhecerá o inferno. - Papai! - Antonella entrou na sala e logo trouxe Lorenzo para junto de si. - Já está enchendo a cabeça de Enzo com essas bobagens outra vez? O senhor não se cansa? - Quanto mais preparad...