As ruas respiravam o ar frio daquele período invernoso.

As cadeias de montanhas que assentavam o rio, outrora de águas caudalosas, agora limitavam um leito quase inexistente, de tímida fluidez, quase implorando o existir.

A coleção de cogumelos ao longo da estrada, imóvel, parecia observar as botas carrancudas que arrastavam os pés mal aquecidos ilha afora. O cabelo liso escorregava os dedos encaixados na luva envelhecida da mão direita, fazia curva ao alcance do pescoço, deixando as articulações soltarem-se desapontadamente ao encarar o destino inóspito daquele indivíduo cambaleante.



Beijaram-se com a certeza do adeus definitivo.

Três meses de vida a ansiar o rosto que os braços nunca iriam embalar, sentia o peito apertar, sabia que não voltaria àqueles olhos neblinantes, àquele sonho de ninar a criança ainda protegida no ventre da mulher amada. "A guerra não é lugar de onde se volta com vida", dissera-lhe o velho Pietro. "Morre algo, sempre morre algo de nós por lá".

- Você promete que pensará em nós? - pediu soluçante a mulher de pele macia como nectarina madura.

- Prometo que serão sempre o primeiro e o último pensamento a habitar minhas memórias - sentenciou. "Homens não choram", repetiu a si, recuando as lágrimas.

Em gestos, o adeus soltou os braços, afastou os corpos, mas nunca distanciaria as almas.

Estavam selados os destinos.



Os dedos queimados pelo fogo do cachimbo denunciavam a ansiedade de Enrico. Não dava para esperar, o espírito queimava com o fumo, era todo o seu ser sedento por vida, mesmo que banhada de ilusão e desespero. Os dedos, em carne viva, eram feios, feridos, ele estava acabado, o rosto perfurado pela velhice precoce, os olhos amarelados pelo vício infeliz.

- Somos só nós - sussurrou ao fogo. - Somos só nós a queimar... e explodir.

Não demorou.

O ambiente fora completamente bombardeado.

Destroçado, assim como o dono, estava o charuto de Enrico.

O choro das viúvas incendiava o ar.

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