Não-lugar

Sem identidade, inorgânico, solidão entre multidões de desamados irmãos.

Lili dos cabelos compridos e amarelos me lembra das princesas que lia na infância. Os olhos amendoados acostumados ao descaso, era bem a terceira vez este ano que cumpria aquele ritual de passagem. Gostou de mim, bem o sei. Foi recíproco.

Davi dos dedos queimados pelo fogo, a urgência de possuir a si através da fumaça expelida junto com a alma. Mas por que alguém amável se destrói por tão pouco? O que nos leva ali? O quanto de humanidade desolada há de comum entre nós, entrenós tão distantes, tão parentes de espírito?

As vozes na cabeça reproduzidas por todo o espaço.
Não vou deixar ninguém dormir, não vou deixar ninguém dormir, não havia mais sombras, nada de medos, pois já somos nós as próprias sobras.



[Segundo Cláudia M. Pereira, de acordo com Marc Augé, todo e qualquer espaço que sirva apenas como espaço de transição e com o qual não criemos qualquer tipo de relação é um não-lugar.

"O não-lugar é o contrário da utopia: existe e não alberga sociedade orgânica alguma. E que de dia para dia, acolhe cada vez mais pessoas".

"O espaço do não-lugar não cria nem identidade singular, nem relação, mas solidão e semelhança".

AUGÉ, Marc, Não-lugares, 90 Graus Editora, 2005.]

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