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A magia de ser criança

Hoje eu assisti um vídeo em que o palestrante falava de um local (não lembro qual) onde as pessoas passavam por treinamentos, eram mergulhadores, acho, então, esses mergulhadores passavam por um treinamento, como era mesmo, eles tinham que fazer um mergulho de noite em uma parte do oceano cheia de tubarões. E ele contou que os instrutores disseram a esses mergulhadores que, apesar de naquela parte ter muitos tubarões, nenhum de seus alunos havia se machucado com algum dos animais. Nisso, deram uma dica valiosa: quando um tubarão começasse a rondar a pessoa, ela não poderia ficar parada, falou algo sobre avançar e dar um tapa no focinho do tubarão, que isso o levaria para longe. E completou que, por mais difícil que fosse, a vida era isso, esse enfrentar de tubarões. A mim as palavras dele fizeram muito sentido. Estava a escrever sobre coisas do tipo na agenda quando meu sobrinho entrou no quarto, carregando dois balões, e disse: - Fatinha, vamos brincar de matar tubarões! Pega...
Difícil. Sei que compreender é o melhor caminho, até porque qualquer rumo que escape desta sugestão me fará perder os cabelos, arrancá-los um a um, então eu posso respirar, bem profundamente, e me lembrar de todo o seu contexto pessoal, suas vivências, suas experiências, suas cicatrizes, e tantas coisas que nunca haverá de ter consciência, improvável que se percebesse assim, céus, que difícil. Vejo os atos que reproduzo e peço a Deus que me dê sabedoria para não repetir seus vícios. Difícil mensurar quem é refém de quem, quem é marionete de quem. Se silencio, estou equivocada, se falo, estou equivocada, se defendo, estou equivocada, se observo, talvez esteja começando a acertar alguma coisa. Mas reconheço que ainda não tenho a paciência necessária, não tenho a resignação necessária, não tenho a compreensão necessária. Não, ainda.

Para as minhas crianças

Era Bibi uma raposinha ruiva muito alegre e serelepe. Ela gostava de acordar bem cedo, abrir a janela do quarto e ver o Sol abrir um bocejo enorme, mostrando todos os dentes num sorriso de bom dia. Da janela, podia avistar sua plantinha no jardim crescendo. A plantinha tinha umas flores laranjas que sempre se abriam quando o Sol já estava acordado lá no alto do céu azul. - Bom dia, plantinha! - disse Bibi. - Bom dia, Bibi - respondeu a plantinha. - Adivinha o que eu vou levar hoje para você! A plantinha riu. - Ora essa! O que você traz todo dia: água bem fresquinha para me deixar forte e me fazer crescer mais ainda. E Bibi ria também, enchendo o balde de água para refrescar a plantinha, enquanto esperava o café que Momi, o ratinho, seu vizinho, sempre trazia toda manhã para aquecer o paladar da raposinha.
As ruas respiravam o ar frio daquele período invernoso. As cadeias de montanhas que assentavam o rio, outrora de águas caudalosas, agora limitavam um leito quase inexistente, de tímida fluidez, quase implorando o existir. A coleção de cogumelos ao longo da estrada, imóvel, parecia observar as botas carrancudas que arrastavam os pés mal aquecidos ilha afora. O cabelo liso escorregava os dedos encaixados na luva envelhecida da mão direita, fazia curva ao alcance do pescoço, deixando as articulações soltarem-se desapontadamente ao encarar o destino inóspito daquele indivíduo cambaleante. Beijaram-se com a certeza do adeus definitivo. Três meses de vida a ansiar o rosto que os braços nunca iriam embalar, sentia o peito apertar, sabia que não voltaria àqueles olhos neblinantes, àquele sonho de ninar a criança ainda protegida no ventre da mulher amada. "A guerra não é lugar de onde se volta com vida", dissera-lhe o velho Pietro. "Morre algo, sempre morre algo de nós ...

Não-lugar

Sem identidade, inorgânico, solidão entre multidões de desamados irmãos. Lili dos cabelos compridos e amarelos me lembra das princesas que lia na infância. Os olhos amendoados acostumados ao descaso, era bem a terceira vez este ano que cumpria aquele ritual de passagem. Gostou de mim, bem o sei. Foi recíproco. Davi dos dedos queimados pelo fogo, a urgência de possuir a si através da fumaça expelida junto com a alma. Mas por que alguém amável se destrói por tão pouco? O que nos leva ali? O quanto de humanidade desolada há de comum entre nós, entrenós tão distantes, tão parentes de espírito? As vozes na cabeça reproduzidas por todo o espaço. Não vou deixar ninguém dormir, não vou deixar ninguém dormir, não havia mais sombras, nada de medos, pois já somos nós as próprias sobras. [Segundo Cláudia M. Pereira, de acordo com Marc Augé, todo e qualquer espaço que sirva apenas como espaço de transição e com o qual não criemos qualquer tipo de relação é um não-lugar. "O não-lug...
- Ora, ora, vejam só - espantou-se. - Vejam só quem está aqui! Aldo não esboçou sorrisos, tampouco conformou-se com a neutralidade da face. Franziu as sobrancelhas violentamente. O impacto da careta fez Alessandro recuar, entretanto, o rapaz não demorou a realizar nova investida de aproximação. - Nem mais um passo - pediu Aldo. - Diga-me onde eles estão. - Hmmm, parece que está procurando alguém... - riu Alessandro. - Deixe-me ver, partindo de você, só pode estar a questionar-se sobre Giulli ou Thomazzo. Francamente? - Francamente! - irritou-se o pequeno. - Francamente, francamente, francamente! Pelos céus, Sandro, não brinque com isso! Se o céu fosse profundo o bastante para espelhar aqueles corpos, cabendo mais de mil seres em toda sua amplidão, toda a eternidade anil adentro não caberia o silêncio inquietante daquele cubículo onde estavam. Nem uma palavra. Alessandro direcionou o olhar para os pés de Aldo, registrando lentamente os farrapos que escondiam a pele do garotinh...

Heart, by Langston Hughes

"Pierrot Took his heart And hung it On a wayside wall. He said, "Look, Passers-by, Here is my heart!" But no one was curious. No one cared at all That there hung Pierrot's heart On the public wall. So Pierrot Took his heart And hid it Far away. Now people wonder Where his heart is Today"