- Tempos sombrios, bem os sei, meu caro - balbuciou o velho entre pigarros. - Ah, malditos charutos que me roubam o fôlego! Logo me roubarão a vida, se quer saber - continuou, os pigarros insistentes.

Entreabertos e desconfiados, os claros olhos pueris não haviam de compreender a análise da graveza daqueles dias feita pelo avô. Até aquele momento, o garoto não tinha tido acesso a situações de violência, apenas conhecia a tal infância bem protegida, entre cômodos espaçosos e cuidados em excesso, por vezes desnecessários.

- Quando eu tinha a sua idade... - suspirou o velho. - Quando eu tinha a sua idade, os tempos eram de paz e contentamento. Não existiam preocupações de qualquer natureza. Tudo era bem resolvido e estável - a boca cuspiu o pigarro fora. - Agora você conhecerá o inferno.

- Papai! - Antonella entrou na sala e logo trouxe Lorenzo para junto de si. - Já está enchendo a cabeça de Enzo com essas bobagens outra vez? O senhor não se cansa?

- Quanto mais preparado o menino estiver para a realidade, mais bem sucedido será em sua trajetória - sentenciou Luigi. Os pigarros saíram em cascata, insuportáveis.

- Ora, ora! - Antonella estapeou as costas do pai. - Deveria procurar um médico em vez de assustar crianças! Francamente, quantos anos de vida ainda lhe restarão dessa maneira?

- O suficiente para abocanhar alguns charutos mais - respondeu, gargalhando alto, ainda na companhia dos pigarros.

- Venha comigo. Vamos tomar um chá. Enzo, por que não procura a nona para dar-lhe um abraço afetuoso? 

Lorenzo encheu o peito, expandindo o sorriso, os dentes pequenos da cor de leite. Uma imagem adorável para assegurar a boa emoção que era estar com a avó. Movimentou a cabeça, indicando concordar com aquela sugestão feita na hora certa. Correu até a porta da sala, entretanto, parou bruscamente, como se tivesse se lembrado de algo que segundos antes esquecera de perguntar.

- O que foi? - quis saber Antonella.

Encarando Luigi, Lorenzo hesitou, mas deixou o fiapo de voz evidenciar seu incômodo:

- Mas o que é inferno, nono?

Luigi gargalhou outra vez, o tom de voz estava mais assustador. Antonella arregalou os olhos, transtornada. Bufou, fechou os olhos,  buscou suavizar a entrada e a saída do ar. Foi em direção à criança.

- Amor de toda esta vida - disse, enquanto ajoelhava-se para alcançar a estatura de Lorenzo. - Seu avô está ficando alienado com o passar do tempo. O inferno só existe para os que o criam. Ou seja, é algo que só vira realidade se você assim o desejar. Crianças só conhecem o céu e é deste modo que deve permanecer sua existência agora. Não quer dar seu beijo na nona?

- É o que mais quero, mama!

- Então vá, ora essa! Deixe que do velho vô cuido eu.

Antonella afagou os fios dourados do garoto e quando este deixou o espaço, ela virou-se para Luigi com os braços erguidos, os punhos cerrados. Nunca iria machucá-lo - não com as próprias mãos, pelo menos. Em virtude disso, socou as almofadas sobrepostas no antigo canapé que ficava no centro da sala.

- Seu infeliz! Se esses charutos não o matarem, eu mesma o farei qualquer dia desses! Continue empurrando esse fumo todo goela abaixo! Tomara que perca a voz para parar de dizer barbaridades aos seus netos!

Enquanto o conflito na sala de estar dava espaço ao silêncio, sustentando a irritação de Antonella e a indiferença de Luigi, em seu quarto, Nina, prostada com o tronco do corpo em uma cadeira de madeira, aos mãos unidas para fortalecer a oração, pedia ao bom Deus que afastasse os tempos funestos dali.

Sentir os braços de Lorenzo envolvendo-a e o calor do beijo de seu amado menino na face foi a melhor resposta que os céus poderiam dar àquele angustiado coração senil. 






Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Arrancar o mal pela raiz