Percorreram a estrada como quem acaba de receber alforria após anos de sofrido aprisionamento. Já estavam distantes dos velhos móveis, dos colchões sujos e finos feito folha de papel, dos ácaros e ácaros a inundar-lhes a respiração todas as noites. Cabiam agora na imensidão azul celestial e em todas as direções apontadas pela rosa dos ventos. Para onde ir pouco importava - naquela hora apenas valiam os risos, as brincadeiras, abrir os braços e sentir o vento cantarolar.

- Giulli, Giulli! - chamou o mais velho, ofegante. - Estamos livres, não estamos?

Giulli parou os passos. As sobrancelhas franziram-se, os girassóis estavam sérios de repente.

- Sendo honesto, eu não sei - respondeu. - Mas, se a liberdade for melhor do que isto, então certamente tudo o que vier a nós será lucro quando formos verdadeiramente livres. - Virou-se para os lados. - Onde está o pequeno Aldo?

Thomazzo riu, a diástema evidente. Apontou para o bosque ao longo da estrada. Aldo pendurara-se na copa frondosa de uma árvore. Apesar do frio, que nunca os poupava dos tremores corporais, no coração de Giulli já era primavera.

Atentos à cena, os olhos de Marieta abençoavam aqueles três destinos, suspirando a saudade que havia de ser, quem sabe, a única companheira dela a partir dali. As lágrimas saltaram suaves, regando as delicadas pétalas da kalanchoe plantada no vaso que enfeitava o parapeito interno da janela lateral da casa.

- O que mais eu poderia pedir? - sussurrou a velha senhora ao silêncio do ambiente. - Já estava na hora. Meu coração saberá esperar.

Viu quando Aldo desceu da árvore. As três silhuetas abraçaram-se. Ah, que bela fotografia capturada pelas retinas tristonhas! Foi a última imagem que Marieta registrou na memória daquele dia, antes de fechar as cortinas do quarto e abandonar-se entre os travesseiros da cama.

Giulli, Thomazzo e Aldo continuaram a caminhar, rumo ao futuro desconhecido que os aguardava longe, muito longe dali.

- Será que algum dia veremos a senhora Marieta novamente? - quis saber o mais novo do trio.

- Nós poderemos vê-la sempre que quisermos! - disse Thomazzo, olhando para Giulli. O amigo compreendeu e continuou:

- Sim, Aldo! Sempre que quisermos!

- Sempre? - duvidou Aldo. - Mas onde?

- Aqui - Thomazzo pôs os dedos sob o lado esquerdo do peito de Aldo. - Lembra a história que ela nos contou do principezinho? O essencial...

- ... é invisível aos olhos - completou o pequeno Aldo. - Só se vê bem com o coração.

- Você é um rapazinho muito esperto!

Aldo enrubesceu. Giulli abraçou o garotinho, que escondeu o rosto em seu casaco maltrapilho e largo. Sentiu um breve calor aquecer a pele do pescoço, o cheiro do hálito bom de Aldo subiu com o som de seus soluços sinceros.

- Vai ficar tudo bem... Desagua, desagua toda a tua saudade. Iremos todos florescer com as tuas lágrimas.

- Eu prometo que vou protegê-los até o fim - soluçou Aldo. - Serei seu nobre defensor!

Os amigos entreolharam-se, rindo da declaração de Aldo.

- Ah, claro! Uau! Agora estou plenamente tranquilo! Nada a temer! Com a defesa desse nobre e forte guerreiro estaremos protegidos de todo o mal! Não concorda, Thomaz? - falou Giulli acariciando o cabelo do menino.

- Amém! - foi a única coisa que Thomazzo conseguiu dizer antes de cair em riso outra vez.

O dia estava apenas começando.

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