Um mergulho na pesada leveza
Da ainda fria manhã
A vida corria sonolenta através do aparente silêncio das ruas
As casas ainda dormiam
Distantes
No regaço dos seus sonhos
Eu caminhava nu e sentindo o bruto atrito da calçada com meus pés
Sentia o suave afago do vento brincando de ser vento
Tão pueril a sua ligeira e paciente correria
Sentia a sutil sensação de estar, de estar vivo
Um estranhamento que se estranha,
Que se perde até ser procurado dentro de si,
Naquele momento não sabia disso
Vagueei os olhos e com eles não enxerguei o que sentia
Via apenas uma rua vazia de gente e entupida de concreto, grades, asfalto, lixo
Não compreendi
Bom dia!
Eu disse a um mendigo dormindo no canto da calçada do outro lado da rua
Que havia ignorado até agora
Me senti mal por ter dito o tal irresponsável "Bom dia"
Me senti indigno
Ele dormia um sono pesado de um vida cansada e torta
Reparei mais um pouco nele e vi uma garrafa de cachaça ao seu lado, quase vazia
Também reparei que ele arquejava, pois chorava enquanto dormia
Não tinha tempo para fazer isso quando estava acordado
Já com o coração pesado
Eu fechei os olhos, angustiado
Não entendia a natureza da vida
Por que estava eu aqui e ele lá?
O que andei fazendo até agora?
Me senti desagradavelmente vivo
Escutei um remoto barulho de bala, que irrompeu contra a minha epiderme mais parecendo som de trovão
Observei
Um despropósito
Sim, um despropósito
Morri ali, na calçada oposta a que o mendigo dormia
Um saco de ossos com sede de vida enterrado sob o aparente silêncio daquela rua
Senti um aconchegante e seguro cheiro de café, não sei como
Meus olhos sem vida, voltaram a pulsar
Meu peito correu na direção daquele convite
Tropecei e caí
Ele pegou em minha mão e me ajudou a levantar e foi segurando
De súbito ele parou, esbarrei nele, estava extasiado naquele momento
Era uma casa
Uma moça com o cabelo faíscando dum laranja intenso
Cabelo como ondas no mar de penugem da fênix
Um sorriso gentil e carinhoso
O seu olhar de presto zelo
Ela me guiou até lá em cima, eu senti um algo crescendo e pulsando de dentro de mim que se encontrava com uma misteriosa energia que penetrava por todos os poros da pele da minha alma
De repente, eu saí correndo para dentro como se já soubesse a direção
Parei, e involuntariamente gritei de olhos fechados e o mais que eu podia
Eu cheguei, desculpem a demora!
Era tudo o que eu podia dizer naquele momento.
Afonso Teixeira
Da ainda fria manhã
A vida corria sonolenta através do aparente silêncio das ruas
As casas ainda dormiam
Distantes
No regaço dos seus sonhos
Eu caminhava nu e sentindo o bruto atrito da calçada com meus pés
Sentia o suave afago do vento brincando de ser vento
Tão pueril a sua ligeira e paciente correria
Sentia a sutil sensação de estar, de estar vivo
Um estranhamento que se estranha,
Que se perde até ser procurado dentro de si,
Naquele momento não sabia disso
Vagueei os olhos e com eles não enxerguei o que sentia
Via apenas uma rua vazia de gente e entupida de concreto, grades, asfalto, lixo
Não compreendi
Bom dia!
Eu disse a um mendigo dormindo no canto da calçada do outro lado da rua
Que havia ignorado até agora
Me senti mal por ter dito o tal irresponsável "Bom dia"
Me senti indigno
Ele dormia um sono pesado de um vida cansada e torta
Reparei mais um pouco nele e vi uma garrafa de cachaça ao seu lado, quase vazia
Também reparei que ele arquejava, pois chorava enquanto dormia
Não tinha tempo para fazer isso quando estava acordado
Já com o coração pesado
Eu fechei os olhos, angustiado
Não entendia a natureza da vida
Por que estava eu aqui e ele lá?
O que andei fazendo até agora?
Me senti desagradavelmente vivo
Escutei um remoto barulho de bala, que irrompeu contra a minha epiderme mais parecendo som de trovão
Observei
Um despropósito
Sim, um despropósito
Morri ali, na calçada oposta a que o mendigo dormia
Um saco de ossos com sede de vida enterrado sob o aparente silêncio daquela rua
Senti um aconchegante e seguro cheiro de café, não sei como
Meus olhos sem vida, voltaram a pulsar
Meu peito correu na direção daquele convite
Tropecei e caí
Ele pegou em minha mão e me ajudou a levantar e foi segurando
De súbito ele parou, esbarrei nele, estava extasiado naquele momento
Era uma casa
Uma moça com o cabelo faíscando dum laranja intenso
Cabelo como ondas no mar de penugem da fênix
Um sorriso gentil e carinhoso
O seu olhar de presto zelo
Ela me guiou até lá em cima, eu senti um algo crescendo e pulsando de dentro de mim que se encontrava com uma misteriosa energia que penetrava por todos os poros da pele da minha alma
De repente, eu saí correndo para dentro como se já soubesse a direção
Parei, e involuntariamente gritei de olhos fechados e o mais que eu podia
Eu cheguei, desculpem a demora!
Era tudo o que eu podia dizer naquele momento.
Afonso Teixeira
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